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Posts Tagged ‘Acontecimentos’

Como referimos anteriormente, todos os problemas com que a República se deparou e que não foi capaz de superar instalaram um intenso mal-estar social, bem como um enorme desconforto e desconfiança relativamente à mesma, em grande parte devido à crescente ameaça do Bolchevismo.

Assim, muitos dos militares de alta patente e formação católica mostravam-se ansiosos pelo regresso aos valores anteriores ao regime republicano, crescendo, deste modo, a ideia de levar a cabo um movimento político anti-regime, que zelasse pela tradição e pelos mais genuínos valores portugueses, assegurando um Estado Forte que defendesse o bem-estar da Nação.

Deste modo, várias foram as ocorrências que marcaram esta, cada vez mais, precária situação:

  • A 19 de Outubro de 1921 registam-se em Lisboa vários actos de terrorismo, numa noite que ficou conhecida como “noite sangrenta”.
  • A 18 de Abril de 1925, o general Sinel de Cordes e o general Gomes da Costa encabeçam uma revolta de pendor nacionalista, semelhante à que ocorrera em 1923 em Espanha (Primo de Rivera). Porém, esta revolta falha.
  • A 19 de Julho de 1925, liderada pelo comandante José Mendes Cabeçadas, ocorre nova revolta, também falhada.

Finalmente, no dia 28 de Maio de 1926, marca-se, em Braga, uma “reunião católica” que juntaria figuras políticas e militares, como Cunha Leal e Gomes da Costa.

  • Às 6:00 da madrugada, com grande apoio civil, inicia-se a movimentação militar, chefiada por Gomes da Costa, que parte sobre Lisboa, culminando com o relativamente pacífico e aclamado final da 1ªRepública e, consequentemente, com a instauração de uma Ditadura Militar.

O Novo Governo

A 3 de Junho, em Lisboa, Mendes Cabeçadas, que aderira ao golpe de Gomes da Costa,  organiza um novo governo, entregando ao último as pastas da Guerra  da Marinha e Colónias, escolhendo, para as Finanças, um professor da Universidade de Coimbra, António de Oliveira Salazar, que acaba por renunciar ao cargo.

Foto:O general Gomes da Costa e o almirante Mendes Cabeçadas passam revista às tropas antes do avanço sobre Lisboa.

Bicefalia do Poder e Instabilidade

Apesar do general Gomes da Costa ter assumido, a 7 de Junho, as funções políticas para as quais fora nomeado, torna-se cada vez mais evidente a insustentabilidade da divisão de poderes entre este e Mendes Cabeçadas. Deste modo, a 17 de Junho de 1926, os seguidores de Gomes da Costa forçam Mendes Cabeçadas a renunciar às funções de Presidente da República e de Presidente dos Ministérios a favor do seu líder, obrigando-o ainda a partir para o exílio.

Mas a instabilidade política mantinha-se e, a 8 de Julho, o general Óscar Carmona  assume a liderança fazendo prisioneiro o general Gomes da Costa, mais tarde deportado para os Açores.
A 27 de Abril de 1928, António de Oliveira Salazar assume a função de ministro da Economia, exigindo, contudo, o total controlo sobre as despesas e receitas de todos ministérios, conseguindo assim um rigoroso controlo de contas. Com Salazar na superintendência das Finanças o Saldo Orçamental alcança, pela primeira vez desde há muito, valores positivos, conferindo-lhe um enorme prestígio. Prenunciava-se a instauração do Estado Novo.

Foto: O marechal Carmona e Oliveira Salazar na abertura solene da Assembleia Nacional (1935), por Amadeu Ferrari, in Arquivo Fotográfico.

Porém, por mais estranho que pareça, mesmo antes da Revolução de 1926, os órgãos de comunicação social já a antecipavam, como prova este Jornal de Março de 1926:

O Jornal de Portimão, Portimão, 28-03-1926, Ano I, Nº 34, p. 1, col. 2 a 4.

Fascismo?!

Como asa negra fatídica, paira sobre a terra portuguesa a ameaça de uma ditadura de carácter fascista.
Quem a prepara? A Cruzada Nun`Alvares, sob a chefia do Comandante Filomeno da Câmara e do Dr. Martinho Nobre de Melo.
Não sabemos com quem contam os apóstolos da “ideia nova”, mas cremos que o povo português, que sempre tem sabido mostrar a sua ânsia de liberdade, saberá conjurar o perigo que o ameaça naquilo que mais se deve prezar na vida – a liberdade de pensamento!
Inspirados no exemplo sublime de Mussolini e de Primo de Rivera, na sua obra sinistra de coacção e tirania, querem atirar para o país um movimento odioso de opressão, como se a ideia de liberdade dum povo retintamente democrata, pudesse assim algemar-se com irritantismos pedantes e desgraciosos!
Essa massa de povo conservador, que vai ser iludida na sua boa-fé, apoiando talvez esse movimento, supõe, porventura, que o fascismo é a maneira prática de cortar o avanço das ideias de democracia, quando é certo que o fascismo italiano não tem sido mais do que uma imitação, quiçá menos perfeita, do Bolchevismo russo, seu mestre e seu inspirador.
Isto mesmo o afirma Mussolini com as palavras pronunciadas na Câmara italiana:
-“Nós temos na Rússia excelentes professores. Não temos senão que imitar o que está sendo feito na Rússia. Eles – os homens dos soviets – são mestres excelentes; sigamos os seus exemplos.”
(…) A odiosa perseguição na Itália, com espancamentos, reptos, cacetadas, assassinatos, ordenados pelo fascismo, constitui a página mais vergonhosa e revoltante da história dos tempos modernos, a mais odiosa afronta feita aos princípios sagrados da Democracia e da Liberdade de pensamento!
Na Itália tudo tem de ser fascista! Quem o não for, quem não pactuar com a obra de opressão levada a cabo por um homem inteligente que a História registará como um dos maiores inimigos da Humanidade e da Ideia, não pode adormecer com a certeza de que no dia seguinte não terá o prédio destruído ou incendiado!
É esta obra deliciosa, de inefável doçura, que os dirigentes propagandistas da ideia nova nos querem oferecer! É esta infâmia que se quer levar a cabo na terra portuguesa de gente brava e indómita que não se curva a tiranias nem aceita escravidões!
Na Itália, confessemos, há um homem inteligente e forte que muito poderia ter feito de bom; porém, o pouco de bem que porventura tinha feito para o seu país, não pode ser considerado se o compararmos com o grande mal que tem feito à própria Itália e à Humanidade!
Mas em Portugal ainda há-de nascer o discípulo de Mussolini … O movimento fascista em Portugal guiado por cérebros ocos e pulsos anémicos, será inevitavelmente a eclosão duma era anárquica, em que fascistas e não fascistas, irmanados na mesma febre de banditismo e torpeza, hão-de aniquilar totalmente tudo o que de democracia a política de gamela e compadrio tem deixado realizar!
Isto vai mau, vai péssimo! Mas não confiemos no messianismo fascista.
Dentro das bases da democracia procure-se a regeneração nacional! Prendam-se os criminosos, castiguem-se todas as infâmias e traição à República, à nação e à liberdade individual!
Avancemos! Para traz nem um passo!
“O fascismo é apenas um retorno ofensivo do passado”, escreveu há pouco Raul Proença, o maior e mais sincero jornalista republicano do presente!
Não pode ser perdido todo o esforço feito, todo o sangue derramado em prol da ideia sublime da Liberdade, o grande sol dos espíritos e grande triunfo da inteligência!
O povo português, conservador e não conservador, há-de saber erguer-se no momento do perigo e fazer a sua afirmação de fé inquebrantável nos destinos da Pátria pela acção da Democracia, sacudindo com bravura indómita toda e qualquer espécie de ditadura, quaisquer que sejam os ditadores! (…)

Passos Ponte

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Cronologia (1926-1974)

  • Golpe de Estado de cariz militar;
  • Entrega do poder a Mendes Cabeçadas;
  • Ditadura Militar;
  • António Salazar é nomeado Ministro das finanças;
  • Gomes da Costa chefia um novo golpe de Estado como chefe do Governo e Presidente da República;
  • Partido Comunista entra na clandestinidade;
  • Em Novembro começam a surgir jornais clandestinos.

  • Surgimento de novos jornais clandestinos: “O Reviravalho”, “A Revolta” e “O Tacho”;
  • Aplicação da censura em fitas cinematográficas;
  • Tentativa de golpe de Estado anti-ditatorial.

  • Criação da Policia de Informação do Ministério do Interior;
  • Óscar Carmona é eleito Presidente da República;
  • Separação dos sexos na escola.

  • Promulgação do acto colonial;
  • Ilegalização do Partido Republicano e prisão/exílio dos seus dirigentes.

  • O “Avante” começa a ser publicado (clandestino);
  • Inicio da publicação do Diário da Manhã;
  • O Rádio Clube Português começa as suas primeiras emissões.

  • Salazar assume a chefia do governo.

  • Criação da Constituição do Estado Novo;
  • Criação da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado;
  • Criação do Tribunal Militar Especial.
  • Publicação pela imprensa clandestina daquilo que a censura cortava.

  • Revolta operária contra a abolição dos sindicatos livres;
  • Criação da Acção Escolar Vanguarda;
  • Primeiro congresso da União Nacional;
  • Três mulheres entram no parlamento português pela primeira vez.

  • Carmona é reeleito Presidente da República;
  • Tentativa de golpe de Estado apoiado por Republicanos e Sindicalistas.

  • Criação da prisão política do Tarrafal;
  • Criação da Mocidade Portuguesa;
  • Criação da Legião Portuguesa;
  • Salazar assume o controlo do exército.

  • Atentado fracassado contra Salazar, feito por anarquistas.

  • Pacto Ibérico entre Portugal e Espanha.

  • Portugal recusa aderir ao Pacto “Anti-Komintern” (anti-comunista);
  • Salazar proclama a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial;
  • Início da Segunda Guerra Mundial.

  • Atribuição a Salazar do título de doutor honoris causa, pela Universidade de Oxford.

  • Óscar Carmona é reeleito presidente da República;
  • Inauguração do aeroporto da Portela.

  • Constituição do Movimento de Unidade Nacional Antifascista (MUNAF).

  • O MUNAF divulga um programa de governo com objectivo da queda do regime após o fim da guerra;
  • Adopção do plano de electrificação do país.

  • Fundação da TAP;
  • Concessão do poder legislativo ao governo;
  • Inauguração do aeroporto de Pedras Rubras (Porto).

  • Manifestação em Lisboa e Porto contra a Ditadura;
  • Publicação pela Time de um artigo crítico para Salazar e o regime;
  • Apresentação do pedido de adesão às Nações Unidas, por Portugal.

1947

  • Demissão de funcionários públicos acusados de participarem em “actividades ilegais”;
  • Surgem os jornais clandestinos: “Barricada” e “Democracia”.

1948

  • Início da utilização da base das lajes nos Açores, pelas forças armadas americanas.

1949

  • Óscar Carmona é reeleito presidente, sem oposição;
  • Portugal é membro fundador da NATO;
  • A União Nacional ganha, mais uma vez, as eleições legislativas.

1951

  • Morte do Presidente Óscar Carmona, após 23 anos de chefia de Estado;
  • O general Craveiro Lopes é eleito Presidente da República.

1953

  • Criação das províncias Ultramarinas, em substituição do Império Colonial Português;
  • Nova vitória eleitoral da União Nacional.

1954

  • Encerramento da prisão política do Tarrafal.

1955

  • Portugal torna-se membro das Nações Unidas.

1956

  • Solicitação da Revogação do regime da censura, dirigido ao Presidente da República;
  • Greves em Lisboa;
  • Emissões experimentais da televisão da RTP em Liaboa.

1957

  • A ONU condena a situação das províncias ultramarinas portuguesas;
  • Início das emissões regulares da RTP. A censura á televisão é feita, tal como na rádio;
  • Advogados protestam publicamente contra as práticas de tortura da PIDE;
  • Humberto Delgado aceita a candidatar-se a Presidente da República.

1958

  • Américo Tomás sobe à presidência da República, onde permanece até 1974, por eleições fraudulentas;
  • Descoberta a conspiração militar para derrubar o regime, dirigida por Humberto Delgado

1960

  • Invasão do Forte de Peniche por parte do PCP;
  • Portugal adere ao Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento;
  • As Nações Unidas voltam a condenar a política Ultramarina Portuguesa.

1961

  • Pedido de abolição da censura dirigido ao Presidente da República;
  • Massacre em Angola;
  • Início da Guerra Colonial;
  • Criação do Movimento Nacional Feminino;
  • Concessão da cidadania portuguesa a todos os habitantes das províncias  Ultramarinas.

1962

  • Criações do Decreto de Lei Nº42278, os crimes da imprensa passam a ser julgados em tribunais plenários;
  • A UPA transforma-se em Frente Nacional de Libertação de Angola;
  • Portugal solicita a abertura de negociações para aderir á CEE;
  • Criação clandestina do Movimento de Acção Revolucionária.

1963

  • A Guerra Colonial estende-se à Guiné.

1964

  • Fundação clandestina do Comité Marxista-Leninista português, e da Frente de Acção Popular;
  • Fundação da Acção Socialista portuguesa por Mário Soares;
  • Escolaridade  obrigatória passa para os 6 anos;
  • A guerra colonial estende-se a Moçambique.

1965

  • PIDE assassina Humberto Delgado em Espanha;
  • Américo Tomás é reeleito Presidente da República;
  • Mário Soares e outros dirigentes da oposição democrática são presos pela PIDE.

1966

  • Reabertura da colónia penal da Tarrafal para os dirigentes independentistas de Angola, Guiné e Moçambique.

1967

  • A NATO localiza um comando em Lisboa:
  • A liga de Unidade e Acção Revolucionário, dirigida por Palma Inácio, rouba o Banco de Portugal na Figueira da Foz.

1968

  • Início da publicação do jornal “A Capital“;
  • Mário Soares é deportado para São Tomé;
  • Salazar sofre uma queda que acaba por o incapacitar;
  • Marcelo Caetano é nomeado Presidente do Conselho de Ministro.

1969

  • Marcelo Caetano visita Angola, Guiné e Moçambique;
  • A oposição Comunista e não Comunista concorrem às eleições para a Assembleia Nacional.

1970

  • Crítica à censura pela sua má difusão de ideias;
  • Morte de Salazar;
  • União Nacional passa a chamar-se Acção Nacional Popular;
  • Criação clandestina do Movimento reorganizativo do Partido do Proletariado;
  • Atentados á Acção Revolucionária Armada.

1971

  • A Nova Lei de Imprensa substitui a censura pelo exame prévio, mas na prática nada muda;
  • Portugal sai da UNESCO em protesto contra o alegado apoio da organização aos movimentos independentistas nas províncias Ultramarinas.

1972

  • Criação da Acção Socialista Portuguesa;
  • Mário Soares junta-se à Internacional Socialista;
  • Tratado de Associação de Portugal á CEE;
  • Américo Tomás é reeleito Presidente da República;
  • Massacre de 400 civis desarmados incluindo mulheres, crianças e idosos, em Moçambique por parte do exército portugués.

1973

  • Início da publicação do Semanário “Expresso”;
  • III Congresso da Oposição Democrática em Aveiro;
  • Primeiras reuniões clandestinas de capitães e outros oficiais das Forças Armadas provocadas pelo descontentamento dos oficiais de carreira;
  • A 24 de Novembro o Movimento de capitães discute pela primeira vez a hipótese de um golpe de Estado para derrubar o Regime;
  • Tentativa de golpe de Estado, de extrema-direita, liderado pelo General Kaúlza de Arriaga;
  • A acção socialista portuguesa transforma-se em Partido Socialista;
  • Congresso dos combatentes do Ultramar defende a continuação da política do Governo para as províncias Ultramarinas e a Guerra Colonial.

1974

  • O General António Spínola publica o livro “Portugal e o Futuro”;
  • O Movimento de Capitães aprova as bases do programa do Movimento das Forças Armadas;
  • Marcelo Caetano pede demissão ao Presidente da República, que não aceita;
  • Tentativa golpista frustrada de oficiais  Spínolistas a partir das Caldas da Rainha;
  • Movimento das Forças Armadas é bem sucedido no Golpe de Estado de 25 de Abril que derruba o regime;
  • Nesse dia, vários jornais nao foram censurados.

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