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Archive for the ‘Marinha Grande’ Category

“Antes tarde que nunca”, já diz o velho ditado, e, seguindo essa máxima, venho aqui e agora, dia 19 de Janeiro, publicar algumas informações relativas ao 18 de Janeiro.

Como todo o bom Marinhense deve já saber (caso contrário, estou eu aqui para inverter a situação) ontem foi dia de comemorações, aqui, na nossa cidade. Passaram já 76 anos desde o acontecimento que as motiva, 76 anos que não varreram a lembrança desse mítico dia em que a voz operária falou mais alto, em que os gritos de revolta, até aí silenciados, se fizeram ouvir, ainda que por breves momentos, 76 calendários foram já arrancados das paredes, 76 anos desde que os heróis lembrados no monumento ostentado na rotunda do Vidreiro lutaram ferozmente pelos seus ideais. 76 anos, um feriado para todos os elementos dessa classe operária, um marco na história da nossa cidade e, contudo, muitos não sabem o porquê de todo o alarido, desconhecem que houve quem lutasse, quem sofresse, quem sonhasse, quem não se resignasse ao confortável e, decerto, menos arriscado conformismo, gente de coragem e fibra aqui mesmo, na nossa cidade.

Este é um dia que não deverá ser esquecido, pois, muito embora o fracasso da revolta, nunca o fez o espírito e a vontade, nunca fracassou a coragem nem a ousadia e, por isso mesmo, a Revolta Operária do 18 Janeiro de 1934 representa uma lição de vida como há poucas, que nunca perderá o seu sentido, por mais anos e séculos que passem. Por tudo isto, a nossa equipa de reportagem saiu à rua, tentando descobrir até onde a Marinha já esqueceu os seus heróis e a sua causa, e também para visitar a Casa Museu do 18 de Janeiro em Casal Galego.

Assim, em breve  poderão ver aqui, neste blogue, o que conseguimos deslindar, bem como algumas informações mais específicas acerca do 18 de Janeiro.

Relatório do 18 de Janeiro

Pela uma hora da madrugada do dia 18 de Janeiro de 1934 reuniram-se os membros Comité Local em conjunto com os componentes de todas as células ao todo 9  e cada uma composta de 9 camaradas que tinham sido já previamente preparados. Esta reunião efectuou-se num local próximo desta Vila, num casão. Todos os trabalhadores se faziam acompanhar de ferramentas diversas para ser empregadas consoante as necessidades. Apresentado o plano pelo Comité Local de autoria do camarada Alfaia, Secretário de organização, todos os camaradas o aprovaram e prometeram o seu integral apoio para o seu cumprimento como era necessário e nomeando para seu executor o mesmo camarada, para isso juraram obedecer às suas ordens.

Após esta reunião que terminou às 2 horas começaram a partir as brigadas armadas de espingardas caçadeiras e machados estes últimos para ser utilizados na obstrução das linhas e estradas, as primeiras a partir, dirigiram-se  para os pontos considerados estratégicos das estradas de acesso às terras circunvizinhas, as últimas para locais estratégicos da Vila aguardando o sinal da luta! Eram 3 horas da madrugada, soou o primeiro tiro! Sinal da luta… 4 brigadas atacam simultaneamente  o posto da Guarda Nacional Republicana e a estação dos correios e telégrafos, esta foi tomada sem resistência, o que não aconteceu com o posto da guarda este encontrava–se de prevenção com todas as praças e o seu comandante os quais não consentiram o assalto fomos obrigados a recuar perante uma dura resistência mas apesar de frustrado o assalto à primeira tentativa, nem um só camarada desfaleceu, melhor coordenadas as nossas forças cercámos o posto.

Antes de fazer novo ataque o chefe do movimento enviou um ultimato para a sua rendição no prazo de 15 minutos tendo o seu comandante respondido negativamente. Apesar da nossa inferioridade de material pois só dispunhamos de armas caçadeiras carregadas com tiros zagalotes e algumas bombas de choque todos deliberaram lançarem-se na luta até caírem inanimados! Ou desistirem os defensores dos Salazaristas!

Todos como um só sob uma voz camarada se lançaram de novo ao ataque na ânsia de quebrar as algemas salazaristas.

Decorrido um hora sem que houvesse baixas a registar, uma brigada em último recurso escala o telhado duma fábrica fronteiriça ao posto dos canalhas; utilizando para este serviço algum material dos bombeiros, dum terraço desta foi alvejado com êxito o posto, gritando logo alguns guardas por socorro que acabavam de ser feridos. Foi então que o comandante nesta altura pediu para ir ao telefone o chefe do movimento.

O nosso camarada Alfaia vai ao telefone e mais uma vez lhe impõe a imediata rendição, este declara estar na disposição de se render mas um dos cabos não queria em virtude de recear represálias da parte dos revolucionários. Este canalha agora lembra-se das patifarias pois era um dos que mais se evidenciava na repressão das greves. O comandante pedia como condição para a rendição apenas que fossem poupados ele e todos os seus subordinados o que se lhe afigura quase impossível julgando os revolucionários indisciplinados!… Ou tratar-se de revolucionários do seu quilate!

O chefe do movimento tomou a inteira responsabilidade das suas vidas e para lhes provar que se tratava de revolucionários com ânsia de liberdade e de paz gritou mandando suspender o fogo essa voz foi por todos acatada, como talvez não fosse um comandante dum regimento. Perante esta demonstração de ordem os guardas acompanhados do seu comandante abandonaram o posto deixando todo o material. Este foi imediatamente ocupado por os operários na melhor ordem tendo sido as armas distribuídas por camaradas aptos. Os guardas a seu próprio pedido ficaram detidos pois que receavam coacções do povo.

Eram 6 horas da manhã todos os postos de comando se encontravam em poder do comité revolucionário; esta vitória deve-se em parte a grande disciplina  que todos deram provas, obedecendo inteiramente às ordens dum chefe que lutou ao lado de todos e sempre na vanguarda. Agora as massas em número mais numeroso vitoriam a ditadura do proletariado e pedem ao mesmo tempo que se faça justiça aos verdugos. A pedido destas o camarada Alfaia chefe do movimento improvisa um pequeno auditório e em seguida pede para o acompanharem ao sindicato dos trabalhadores vidreiros para assistirem à sua abertura o qual se encontrava fechado há 5 meses. Fazendo de novo uso da palavra exortou à união de todos os trabalhadores demonstrando que sempre que se unem saem triunfantes a recente vitória era uma prova bem visível  e concludente, no final foi delirantemente aplaudido.

Às 8 horas da manhã devido à falta de alimentação as massas começam as desfalecer e alguns vão às suas casas confortar o estômago. Em face disto o comité cria imediatamente um comissariado de alimentação concedendo a este a liberdade de mobilizar tudo que fosse necessário. Porém este não chegou a prestar serviços em virtude de sermos neste momento vítimas de novo ataque agora era uma força de polícia e de guarda republicana já de Leiria, para reprimir o movimento estes traziam ordens para não fazer prisões nem feridos!

Aproximação destes deve-se ao abandono dum dos postos mais estratégicos na estrada que liga com Leiria esta brigada abandonou o seu lugar sem consultar o comité facilitando involuntariamente a passagem às forças as quais nos surpreenderam já dentro da Vila e por pouco não fomos todos fuzilados. Graças à intensa força de vontade e apesar de o número neste momento ser reduzido ainda nos foi possível afastar o inimigo para 1.500 metros deixando estes 5 feridos no solo. Do nosso lado também registamos 2 feridos que foram imediatamente pensados no posto de socorros que já tinha sido organizado por um médico e um farmacêutico «simpatizantes».

A falta de alimentação acentua-se mas devido ao reduzido número de revolucionários e ao intenso ataque do inimigo não nos é possível sem remediar esta falta. O inimigo volta ao ataque agora mais impetuoso dispondo já de artilharia pesada, mas as nossas carabinas soam a 1.500 metros por isso ainda não lhes é possível romper.

Fogo nutrido de metralha e à vista a cavalaria e infantaria, perante esta força bruta; e a nossa fadiga duma noite completa de luta recuamos em direcção das matas, onde ainda pretendemos defender os pontos com tantos sacrifícios conquistados mas tudo debalde, ao meio da tarde chegam os jornais de Lisboa anunciando o fracasso do movimento nos outros pontos do país então resolvemos refugiar-nos no interior das matas, aqui permanecemos 2 dias mas neste momento último dia dos jornais anunciam uma batida às matas para prender a maioria dos revolucionários que ainda pretendiam resistir e o governo já tinha ordenado que seguissem mais tropas para esse fim estávamos irremediavelmente batidos, deliberamos dividir-nos em pequenos grupos e procurar escapas às garras da canalha.

Mas em breve começaram as prisões em massa e levados todos os presos para Leiria pois aqui a canalha podia exercer à vontade as patifarias.

Os nossos camaradas são barbaramente espancados pelos canalhas da informação e do sr. chefe da polícia, não escapando às suas garras menores ou tuberculosos e assim estes vampiros liquidaram o nosso camarada Manuel Esteves de Carvalho o qual já se encontrava tuberculizado desde há 2 anos devido aos maus tratos que lhe infligiram após o 7 de Fevereiro.

Lisboa, 20 de Maio de 1936

O Secretário de organização

Pedro Amarante Mendes

Fonte: http://www.pcp.pt/


Para terminar deixo-vos um pequeno desafio: Gostaria que deixassem a vossa opinião acerca de qual a verdadeira importância do 18 de Janeiro e uma palavra que o defina.

Continuem a seguir-nos (se já o fazem) ou ponderem começar a fazê-lo, garanto-vos que não se desiludirão.

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