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Archive for the ‘Estado Novo’ Category

Sala de Aula


Sala de Aula (a vermelho alguns dos elementos essenciais)

ANTES DA AULA:

Todos: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ámen.

Professor: Jesus, divino Mestre…

Todos: …iluminai a minha inteligência, dirigi a minha vontade, purificai o meu coração, para que eu seja sempre cristão fiel a Deus e cidadão útil à Pátria.

Todos: Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória.

A Aula:

As Lições de Salazar

Em 1938, começam a ser distribuídos, pelas escolas primárias do país, vários cartazes. Estes, chamados de “A Lição de Salazar”, tinham portanto como principais objectivos:

  • Inculcar, nas crianças, o ideário Salazarista.
  • Glorificar a obra feita pelo ditador, desde o plano económico-financeiro às obras públicas.
  • Transmitir a superioridade de um Estado Forte e Autoritário sobre os regimes democráticos.

  • Estado Novo/1ªRepública

Além de todos os objectivos acima referidos, os cartazes de “A Lição de Salazar” procuravam ainda realçar o carácter benéfico do Estado Novo para a Nação, opondo as qualidades deste, como:

  • Organização Financeira

Pode ler-se: "Graças à restauração financeira iniciada em 1928, os títulos do Estado e a moeda portuguesa fortes pela modelar administração e pelas reservas de ouro, são hoje das mais acreditadas do Mundo".

  • O investimento no desenvolvimento e melhoria das vias de comunicação.

Pode ler-se:"Onde eram escalvados os montes, ressequidos os campos e intransitáveis os caminhos, já reverdecem pinhais, brilham louras searas e magníficas estradas cortam Portugal de lés a lés."


  • A construção de portos.

    Pode ler-se: "Não havia portos que satisfizessem as exigências da economia naciona ou que ao menos servissem de apoio à rude faina dos nossos pescadores. Está a construí-los o Estadi Novo, e já os maiores transatlânticos do Mundo podem acostar ao cais de Portugal."

  • A organização e progresso social.

Pode ler-se: "Do abandono dos serviços públicos e das ruínas, sinais de desordem e de miséria, o Estado Novo, ao mesmo tempo que edifica, faz renascer o património histórico e artístico da Nação."

À desorganização económica e financeira e ao alheamento do Estado democrático e liberal republicano face aos problemas do país. Este contraste era ainda acentuado através da representação da 1ª República com uma imagem cinzenta e triste, destoando do tom colorido, alegre, organizado e moderno do “Depois” Salazarista.

  • Glorificação do Ideário

Ou seja, estes cartazes glorificavam a obra do Estado Novo, tal como o seu ideário.

  • Publicitam o carácter vantajoso do corporativismo, como promotor da harmonia social, da justiça, do progresso.
  • Realçam a importância de tornar Portugal num país respeitado, com um Estado Forte, económica e socialmente saudável.
  • Propagandeiam a aparente modernidade inerente à obra do regime.

Pode ler-se. "Em contraste com o zero da força armada, a que os partidos a haviam reduzido, o Estado Novo assegura, em todos os campos, com os mais eficientes meios técnicos, a defesa da Nação e do Império."

Pode ler-se: "Com o Estado Novo Corporativo inicia-se uma era de dignificação de trabalho e de justiça social."

Deus, Pátria, Família: a Trilogia da Educação Nacional”

Este cartaz, que talvez seja o mais conhecido cartaz da “Lição de Salazar”, sintetizava na perfeição a moral e pedagogia salazaristas. Assim, mostrando um lar humilde, patriarcal e cristão, faz apologia à vida simples rural, isenta dos vícios da sociedade urbana.

Assim, neste lar simples, onde nada remete para a indústria ou modernidade (água, electricidade, jornal, rádio,…), todos ocupam o seu lugar:

  • Mulher: submissa, cumpre as suas funções de esposa e mãe.
  • Pai: chefe de família, regressa do seu trabalho no campo, sustento da família.
  • Filhos: recebem o pai alegremente (de reparar que enquanto que o menino segura um caderno – escola, estudos-, a menina brinca às donas-de-casa – o que será quando crescer).

Nem os acessórios são descurados:

  • Crucifixo, Pão e Vinho: simbolizam a missa, o catolicismo, a devoção cristã.
  • Bandeira Nacional (através da janela): Nacionalismo, gloriosa História da Pátria.

    Escola como Propaganda

Ou seja, através destes cartazes podemos já concluir que a escola era tida como um essencial meio de inculcação do ideário Salazarista. Mas esta difusão era ainda acentuada pelos manuais escolares únicos e meticulosamente seleccionados pelo Ministério da Educação Nacional.

De facto, logo no manual da Primeira Classe podem encontrar-se, explicitamente, estes valores, desde a glorificação da obra do Estado Novo e do seu líder, Salazar; o papel subalterno da mulher, limitada à função de esposa e mãe; a caridade que, quantas vezes, substitui a função social do Estado; a catequese, incutindo os rudimentos da doutrina católica; a gloriosa história pátria que transforma Portugal na Nação mais bela do mundo e de que o Estado Novo é o mais legítimo herdeiro:

«A dona de casa

Emilita é muito esperta e desembaraçada, e gosta de ajudar a mãe.

– Minha mãe: já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar.

– Está bem, minha filha. Quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa.»

«Os pobrezinhos

– Batem à porta. Meu filho, vai ver quem é.

– É um pobre, minha mãe, um pobrezinho a pedir esmola.

A mãe veio logo com um prato de sopa e deu-o ao pobre. Depois, voltou para a sala de costura e deixou o filho a fazer companhia ao mendigo. Este, quando acabou de comer, disse por despedida:

– Deus faça bem a quem bem faz!

O menino ficou comovido: – Que pena tive do pobrezinho!

– E é caso para isso, respondeu a mãe. Os pobres são nossos irmãos. Devemos fazer-lhes todo o bem que pudermos. Jesus ensinou que até um copo de água, dado aos pobres por caridade, terá grande prémio no céu.»

«O Anjo da Guarda

O Fernando vai ao colégio e tem de passar em ruas e praças onde se cruzam automóveis.

– Cautela, Fernandinho! Vai sempre com atenção.

O menino às vezes é distraído e não pensa no perigo. Mas a mãe, que ficou em casa a trabalhar, nunca se esquece do filho e vai pedindo ao Anjo da Guarda que o acompanhe:

– Anjo da Guarda, livrai o meu menino de todos os perigos. Velai por ele!»

«A cantina escolar

– Gostei tanto de ir hoje à escola, minha mãe! A senhora professora estava muito contente, porque inaugurou uma cantina, onde os meninos pobres podem almoçar de graça. Se visse, Mãezinha! As mesas muito asseadas, os pratos branquinhos, jarras floridas e tudo tão alegre!

A sopa cheirava que era um regalo; e todos nós estávamos satisfeitos, ao ver os pobrezinhos matar a fome.

O filho do carpinteiro, a quem eu às vezes dava da minha merenda, de vez em quando ria-se para nós, como que a dizer:

– Está óptima, a sopinha!

Perguntei à senhora professora quem tinha feito tanto bem à nossa escola e ela respondeu-me:

– Foi o Estado Novo que gosta muito das crianças e para elas tem mandado fazer escolas e cantinas, creches e parques. Mas as famílias que possam também devem ajudar. Não te esqueças de o dizer à tua mãe.»

«Respeitai as autoridades

O pai é a autoridade na família. Os filhos são obrigados a ter-lhe amor, respeito e obediência. O professor é a autoridade na escola. Todos os meninos devem obedecer às suas ordens e estar com atenção às suas lições.

É Deus quem nos manda respeitar os superiores e obedecer às autoridades.»

DEPOIS DA AULA:

Professor: Graças Vos damos, Senhor,

Todos: por todos os benefícios que nos tendes concedido. Ámen.

Professor: Abençoai, Senhor,

Todos: a Vossa Igreja, a nossa Pátria, os nossos Governantes, as nossas famílias e todas as escolas de Portugal. Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ámen.»

Fonte:http://www.esfcastro.net/portal/

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Desde a prisão de Caxias e de Peniche até ao Campo de Concentração do Tarrafal, todas estas prisões se tornaram, tristemente, célebres pelas vidas que nelas se perderam e por tantas outras que por elas foram marcadas.

Em Caxias, por exemplo, os presos entravam às centenas. Aqui, os presos eram torturados, espancados, deixados a apodrecer, a adoecer, com dores, vómitos ou até, no caso das mulheres, período menstrual, e tudo isto sem tomar banho, a tremer de frio e a passar fome. Além de tudo isto, havia ainda os interrogatórios, os insultos, o silêncio, o isolamento, as humilhações, os microfones que, escondidos, registavam todas as palavras e ainda as visitas com guardas ao lado.

Que pretendia a PIDE com tudo isto? Obter a confissão do preso, por mais verdadeira que fosse a sua inocência. De facto, na maior parte das vezes, não havia uma única prova material do crime, a confissão teria de ser arrancada durante o interrogatório, fazendo uso dos mais cruéis e desumanos métodos de tortura, espancamentos, tortura do sono ou da gota de água, isolamento continuado, ameaças de morte, …

A tortura do sono era uma das mais aplicadas em Caxias, recorrendo-se a estímulos de intensidade crescente para manter o preso desperto. Por exemplo, numa primeira fase, brincava-se com uma moeda, abriam-se e fechavam-se gavetas ou obrigava-se o preso a passear pela sala; numa segunda fase, berrava-se, espancava-se, gravavam-se gritos, mudava-se repentinamente a temperatura, queimava-se o preso e obrigava-se o mesmo a ficar em posição de estátua.

Por seu turno, as salas de interrogatório eram pequenas, como mobília apenas uma mesa, uma cadeira , um banco e alguns candeeiros, escondendo microfones.

Um investigador americano, que visitou a prisão em Agosto de 1974 comparou Caxias ao sistema prisional americano, mais concretamente a Guantanamo, em Cuba
Um dos motivos que levou o autor a fazer essa comparação está relacionado precisamente com a especialidade da PIDE, a tortura do sono. De facto, existem indícios de que este método era aplicado com a ajuda da CIA, que em 1963 produzira o «Kubark», manual secreto que descrevia a forma de exercer tal tortura.

«Durante vários dias, no princípio do verão de 1974, tive acesso livre a uma estranha e terrível prisão próxima a Lisboa, então vazia devido ao golpe que no mês de Abril findou 48 anos de ditadura fascista em Portugal. (…)
A prisão de Caxias era dirigida pela polícia secreta, a PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado), temida pelos portugueses. Os peões atravessavam a rua para evitar passar em frente à sua sede em Lisboa. Caxias era uma velha fortaleza próxima ao mar, mas no seu interior havia uma moderna câmara de tortura que utilizava as mais recentes técnicas de coerção — concebidas pela US Central Intelligence Agency.
Durante décadas, milhares de prisioneiros políticos, principalmente comunistas e socialistas, deram entrada em Caxias para tortura sistemática e a seguir foram soltos. Por que estes subversivos conhecidos, que haviam dedicado as suas vidas à destruição da ditadura, puderam retornar à liberdade? Porque o êxito das técnicas modernas de tortura importadas pela Pide significava que as suas vidas anteriores haviam-se tornado irrelevantes? Nas palavras da Pide, eles haviam sido “jogados fora do tabuleiro de xadrez”. As suas vidas, velhas ou novas, foram destruídas.»
(Cristopher Reed)

Longos corredores nas trevas percorremos
sob o olhar feroz dos carcereiros
mas nem a luz dos olhos que perdemos
nos faz perder a fé nos companheiros.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Cortam o sol por sobre os nossos olhos
muros e grades encerram horizontes
mas nós sabemos onde a vida passa
e a nossa esperança é o mais alto dos montes.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

Podem rasgar meu corpo à chicotada
podem calar meu grito enrouquecido
que para viver de alma ajoelhada
vale bem mais morrer de rosto erguido.

Vá camarada mais um passo
que já uma estrela se levanta
cada fio de vontade são dois braços
e cada braço uma alavanca.

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A censura foi um instrumento fundamental na defesa da estrutura política do Estado e de todos os assuntos que poderiam afectar a sua segurança e prestígio”. Assim, além de toda a censura na iteratura e no cinema, como vimos anteriormente, esta atingia também a imprensa escrita, marcada, portanto, não só pelos cortes como pela subversão de ideias, pela mutilação do desenho, ou até pela inteira supressão dos conteúdos.

Porém, por vezes, nem era necessário a actuação directa dos orgão censores, uma vez que o conhecimento da sua existência e o medo de represálias traziam como consequências a contenção, a autocensura, o manter-se nos limites daquilo que era o “politicamente correcto”.

Ainda assim, existia quem possuísse o arrojo e ousadia necessários para adoptar uma atitude inversa , fazendo passar mensagens quase que subliminares, ludibriando, subtilmente, a acção do lápis azul.

Na política nacional, vários eram os assuntos “proibidos”: a falta de liberdades, o oportunismo, a corrupção, as críticas a figuras ou instituições do Estado, a miséria do “Zé Povinho” sobrecarregado por um número infindável de impostos e contribuições, o desemprego crescente, a sátira a datas como 28 de Maio, o 10 de Junho e o 5 de Outubro, e, claro, a guerra colonial e todas as suas consequências.

Também os acontecimentos da política internacional eram fililtrados pela política de informação do Estado Novo. A referência tema da guerra civil de Espanha, por exemplo, era sinónimo de corte.

Ou seja, apesar das incertezas, dos refugiados, e da miséria, o censores tinham como obrigação zelar “pelos bons costumes e moral da pátria”, dando sossego, ao invés de preocupações, ao leitores, pelo menos era essa a imagem que o Estado tentava fazer passar.

Brevemente, colocarei mais informações acerca da censura na imprensa, até lá deixo, aqui, um desafio: Alguém saberá qual a origem do lápis azul? Ou, pelo menos, qual a vossa opinião acerca da sua origem, porquê azul?

P.S.- Finalmente conseguimos fazer erguer a nossa “Luta Esquecida”, esta semana foi recheada de acontecimentos e boas novidades, desde a atenção disponibilizada pela Associação 25 de Abril, com a sua rápida e lisonjeadora resposta, até ao artigo no JMG  desta semana. Porém, mais tarde deixarei aqui os merecidos e devidos agradecimentos.

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Clara Barata e Luís Miguel Queirós são autores de um trabalho apresentado no suplemento Leituras do jornal «Público» de 11 de Junho de 1994. Chama-se Livrarias no Regime Fascista e nele alguns intervenientes recordam as suas experiências desse tempo:

Reunia-se aqui muita gente contada com a oposição à ditadura – explica Fernando Fernandes, que acompanhou todo o percurso da Livraria Divulgação e passou a sócio-gerente da Livraria Leitura. Antepassada da actual Leitura, a Divulgação foi, no Porto, ao longo da década de 60, a mais importante livraria da oposição.

Conforme palavras dos autores do texto do «Público»: à sorrelfa, arranjavam-se os livros dos quais o regime não queria que se ouvisse sequer falar. Escondiam-se em vãos de estantes, paredes falsas, ou até em baldes de tinta, e só se vendiam a clientes de confiança – “por debaixo do balcão”, embrulhados em papel pardo.

A norte do Porto, raras eram, também, as cidades que não possuíssem uma ou outra livraria conotada com a oposição ao regime. A do historiador Victor Sá, em Braga – a Livraria Victor, na Rua dos Capelistas, cuja antiga sede foi sacrificada a interesses imobiliários – terá sido, porventura, a que atingiu maior notoriedade.

As pessoas sabiam que ao importar, distribuir ou editar determinadas coisas, se sujeitavam às consequências, conta José Ribeiro, da livraria, editora e distribuidora Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, em Lisboa.

Por vezes, levavam-me preso, para a António Maria Cardoso, para prestar declarações. Faziam interrogatórios de intimidação, acusavam-me de ser um comunista disfarçado de comerciante, recorda José Ribeiro. A única hipótese era fazer como Manuel Ferreira da Costa, da Livraria Sá da Costa, de Lisboa: Eles faziam perguntas parvas e a gente respondia parvamente.

Habituávamo-nos a trabalhar em dois níveis. Interiorizávamos os códigos de vivência impostos, sabíamos o que podíamos escrever, editar ou vender. Jogávamos um jogo, reflecte Alferes Gonçalves, da Livraria Finisterra, em Coimbra. Era uma espécie de jogo do polícia e ladrão, acrescenta José Ribeiro.

Os livros proibidos eram verdadeiros “best-sellers”, tanto pelo que eram, como por serem proibidos. Muitas vezes nem eram nada de especial. Mas a proibição aguçava o apetite, afirma José Reis, gerente da Livraria Portugal, na Rua do Carmo. Quem fez grande fama dos livros proibidos da Ulmeiro foi a PIDE, comenta José Ribeiro.

O leitor interessado sabia onde encontrar o livro proibido. Em Lisboa, nas livrarias do Centro do Livro Brasileiro ou da Europa-América, na Moraes, ou na Ulmeiro. Na velha Barata, com o malogrado António Barata, ou o Afonso que por lá continua. Na Boa Leitura, junto ao Areeiro, onde um dos irmãos Branco tinha sempre o que era preciso. Ou na cooperativa do Clube Expresso, frente ao Hospital dos Capuchos, onde o Lourenço atendia os mais subversivos pedidos de títulos caídos em desgraça.

As cooperativas livreiras foi uma outra realidade no mundo dos livros proibidos. Éramos todos muito jovens, tínhamos 18 ou 20 anos. Foi a nossa grande escola política, diz Irene Rodrigues, que trabalhou, desde 1966, na Livrelco e está hoje na Livraria Buchholz, na Rua Duque de Palmela, em Lisboa.

Fonte:http://www.vidaslusofonas.pt/livros_e_censura.htm

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Censura na Literatura

Apesar da censura não se aplicar directamente aos livros, estes eram com facilidade retirados do mercado e os seus autores ou editores sujeitos a castigo. Foi o que aconteceu, por exemplo, a Aquilino Ribeiro, em 1959. Neste ano, com 74 de idade, o escritor vê-se perante a barra do Tribunal, indiciado num processo por delito de opinião, em que a pena de prisão poderia ir até oito anos. Isto por ter publicado o romance Quando os Lobos Uivam, onde retratava uma realidade da vida camponesa, na Serra da Estrela, que desagradou ao regime de Salazar.

– A seu ver, o mundo andava torto, uns tinham muito e outros não tinham nada; uns morriam à fome e outros de indigestão. Mas, verdade seja, que não aconselhava ninguém a usar da violência. Quanto a ser herege, toda a gente sabe que não vai à missa nem se confessa. Mas não é homem para atirar uma pedra a um gato…

– Nunca lhe ouviu dizer que a religião era uma impostura e os padres os funcionários desta impostura?

– Não, senhor.

– Pois está-lhe imputado nos autos – proferiu batendo no imenso bacamarte do processo. – Mas se lho ouviu, acha que destoa tal dito na boca do réu?

Bruno Lêndeas torceu-se, esboçou um esgar, e acabou por dizer:

– Não, senhor.

– Muito bem! E este outro dito: Cristo nasceu nas palhas, para nos mostrar que somos todos iguais. Que sociedade é esta onde uns têm tudo e outros não têm nada? – ouviu-lhe?

– Também não, senhor.

– Sabe se lia certos autores condenados pelo bom senso, o Estado, e a tradição religiosa, como Lenine, Karl Marx…?

– De Carlos Marques não sei. De Carlos Magnus vi-lhe o alfarrábio na mão.

Os senhores juízes soltaram-lhe uma gargalhada estrepitosa, menos ao alegre desenfado do que para confirmação de suas conspícuas inteligências. O representante do Ministério Público dobrou a cabeça, encantado:

– Estou satisfeito.

Aquilino Ribeiro (1958). Quando os lobos uivam. Lisboa: Bertrand. pp. 299-300.

Porém muitos outros episódios como este ocorriam na época do Estado Novo

, muitos foram aqueles que conheceram a violência, psicológica ou física, da censura. Por uma razão ou outra e por mais ou menos tempo, muitos escritores foram deti

dos sob a acusação de delitos políticos ou de atentado aos costumes, por exemplo:

Por causa do livro Poesia Erótica e Satírica, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny, Ernesto Melo e Castro, Luiz Pacheco e o editor Fernando Ribeiro de Meloforam julgados e condenados com multas e prisão remível.

Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa desceram por sua vez à barra do tribunal por causa das Novas Cartas Portuguesas.

Fonte:http://www.vidaslusofonas.pt/livros_e_censura.htm

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A Censura, não sendo uma prática inédita em Portugal, adquire, no Estado Novo, uma sofisticação que, até aí, não possuía, tornando-se não só permanente como um organismo sólido e integrado no aparelho de Estado. Como referido anteriormente, a Censura englobava todas as formas de informação e criação, inibindo todas as que se revelassem divergentes do ideário que o Estado tentava, a todo o custo, inculcar, aniquilando, assim, a liberdade artística e criativa bem como o espírito crítico. Os livros, imprensa, rádio, espectáculos, artes plásticas, música, ensino, cinema e, mais tarde, a televisão, estavam sob o olhar dos censores e a ameaça da polícia secreta.

No que dizia respeito ao cinema, “a actividade da censura não é anterior à estreia do filme, mas sim posterior, deixando-se ao arbítrio dos empresários o seu cumprimento”. Arbítrio condicionado pelos assuntos interditos pela Ditadura. Estes diziam respeito a “fitas perniciosas para a educação do povo, de incitamento ao crime, atentatórias da moral e do regime político e social vigorantes”. Da mesma forma, eram censuráveis todas as cenas que mostrassem:

  • maus tratos a mulheres,
  • torturas a homens e animais,
  • personagens nuas,
  • bailes lascivos,
  • operações cirúrgicas,
  • execuções capitais,
  • casas de prostituição
  • assassínios,
  • episódios de roubo com arrombamento
  • violação de domicílio

Em 1944, a IGT (Inspecção Geral de Teatros) passa a fazer parte do Serviço Nacional de Informação (SNI), ex-Secretariado de Propaganda Nacional, chefiado por António Ferro.

Um ano depois é instituída legalmente uma Comissão de Censura, tendo sob a sua tutela a censura teatral e cinematográfica.

Em 1948 fica assente que qualquer tipo de exibição só seria possível após a atribuição de uma “Licença de Exibição”, dependente de um “visto de censura”.

A esmagadora maioria dos filmes censurados durante o Estado Novo era proveniente do estrangeiro. Só entre 1964 e 67, foram apresentados à Censura 1301 filmes, sendo que, destes, 145 foram proibidos, e 693 autorizados com cortes.

Se até 1936 a censura cinematográfica ainda não exercia um apertado controlo, o início da Guerra Civil Espanhola tornou mais apertadas as suas malhas.Proibiram-se:

  • filmes russos
  • filmes da «Frente Popular» francesa
  • filmes  simpatizantes com a «España Leal» republicana”
  • filmes anti-nazis (durante a 2ªGuerra)

Após o final da guerra, numa curta fase de distensão do regime, entram finalmente filmes como “Casablanca”, que esteve dez semanas em cartaz. Só que,  logo o cerco voltou a apertar, tendo como grandes vítimas as obras do neo-realismo italiano e alguma filmografia francesa. Por outro lado, todos os filmes do Leste europeu e soviéticos eram suspeitos.

No que diz respeito à filmografia portuguesa, as referências a filmes com partes censuradas existem desde, pelo menos, 1937.Por exemplo:

  • ” Maria Papoila”, da autoria de Leitão de Barros, tem cortes de censura.
  • “Aldeia da Roupa Branca”, de Chianca de Garcia, sofreu um pequeno corte numa cena considerada “imoral”.
  • ” Nazaré”, de Manuel Guimarães  foi exibido, mas retalhado.

A Auto-Censura

Do ponto de vista da realização, para além do facto de muitos autores serem a favor do regime, a auto-censura era uma constante. Constituía a prova de que o sistema funcionava. Se à partida se liberalizava a produção, pois não se controlava os argumentos e filmagens, ninguém se daria ao trabalho de avançar com um projecto passível de ser censurado no final.

A partir de 1948, com a criação do #Fundo do Cinema Nacional#, a indústria nacional torna-se refém do julgamento governamental, do que deve ou não ser criado, através da atribuição dos subsídios.

O mundo do cinema não se restringia só à tela, pelo que também os livros e as revistas, bem como as notícias sobre os filmes, eram alvo de análise por parte dos censores. No dia 4 de Abril de 1967, o coronel Pinheiro, com o seu lápis azul, escreve: “Qualquer referência ao filme «Quem tem medo de Virgínia Wolf» – SUSPENDER”. Diversos números das revistas “Ciné revue”, “Films and filming”, “Film Comment” e “Cahiers du cinema” foram proibidos de circular.

Nos anos 70, já com Marcelo Caetano, aumenta o número de filmes nacionais proibidos.

De Julho de 1971 a Março de 1972, foram conduzidos 304 filmes à estrutura agora chamada de Comissão de Exame e Classificação de Espectáculos.

Alguns filmes cuja exibição foi proibida:

  • “Sofia e a Educação Sexual”, de Eduardo Geada
  • ” Nojo aos Cães” de António de Macedo
  • ” Nem Amantes, Nem Amigos” , de Orlando Vitorino

  • ” Índia”, de António Faria

  • ” Grande, Grande era a Cidade”, de Rogério Ceitil
  • ” O Mal-Amado”, de Fernando Matos Silva
  • ” Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras”, de Lopes Barbosa

  • ” Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço”, de César Monteiro
  • “Catembe”, de Faria de Almeida.
Fonte: http://www.amordeperdição.pt

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Sem dúvida alguma, o Estado Novo possuía um acentuado carácter repressivo, munindo-se, portanto, de um aparelho repressivo que amparava e perpetuava a sua acção, impedindo a difusão de ideais que fossem contrários aos do regime e punindo todos os que ousassem fazê-lo.

Assim, um dos elementos deste concertado aparelho foi precisamente a censura prévia à imprensa, ao teatro, ao cinema, à rádio e, mais tarde, à televisão, incidindo, especialmente, sobre os assuntos políticos, militares, morais e religiosos. Vivia-se, portanto, numa autêntica ditadura intelectual, cabendo aos censores a tarefa de proibir a difusão de palavras e imagens que contrariassem o ideário Salazarista.

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